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Okhara
José Simão
Diarréia Mental


quinta-feira, janeiro 16, 2003

 

Uma noite

Sentando em frente de casa, um dia qualquer, uma pessoa passou ao meu lado, uma pessoa estranha, diferente, de cabelos longos e olhar negro, como uma sombra, um alguém, uma pessoa sem espírito, sem emoção, sem calor, quase que sem corpo, magra, mas apesar de tudo linda!

Guiou-me pela sombra até um beco em minha rua, na verdade não um beco, uma rua, apenas não havia saída, pois dava para uma casa velha e desabitada, muito depredada pelas crianças da rua. Bateu três vezes na porta velha de madeira podre pelo tempo, chuva e vento, uma luz de acendeu, eu apesar de assustado não dizia uma palavra e era como se a coisa não me visse, eu estava a seguindo e ela me levando sem saber. Entramos na casa como num passe de mágica, não percebi andar até ela, simplesmente apareci lá, pessoas estranhas ficavam velhas mesas redondas cobertas com um pano xadrez, vermelho e preto com quadrados medianos. Alguns fumavam um pequeno cigarro de palha de cheiro forte, outros um charuto mais forte ainda e uns poucos, dois ou três fumavam cachimbo, um cheiro adocicado era solto deles e freava um pouco o cheiro ardido do fumo e do charuto. Algumas mulheres eram reconhecíveis, pela energia leve e delicadeza existencial, mas na maioria eram homens, todos juntos num ambiente pesado, sombrio e calado.

Fiquei ali parado, quieto, mudo, estático e pasmo com toda a tenebrosidade do local, parecia que ao passar do tempo mais pessoas apareciam e a sala ia ficando cada vez maior, foi quando de repente senti me no meio daquilo tudo e vi olhos por todos os lados a me cercar, agora podia ver seus rostos tão pertos que me agoniavam, como que por algo que eu tivesse feito ou talvez fosse todos começaram a rir de mim, gargalhadas estrondosas eram lançadas e apontadas para mim. Comecei a me sentir cada vez maior, mas isso era pior pois eu queria sumir e não aparecer ainda mais, parecia um pesadelo, ficava angustiado, com medo e me perguntando por que de seguir aquela criatura, aliás ela já havia sumido de mim, não mais a sentia, nem ouvia as gargalhadas, estranhamente tudo foi ficando calmo, negro, uma escuridão fria, aquilo não tinha nexo, me senti vazio, me senti sozinho, me senti leve de repente e comecei a voar naquela massa negra.

Foi então que meu corpo começou a pesar, senti primeiro minha mão me puxando para baixo, de repente era como se eu estivesse em queda livre, sem poder ver o chão, se é que existia, ia caindo mais e mais chegando num ponto em que aquilo já não mais me assustava, apenas caia sem parar, esqueci por alguns instantes disso e senti meu corpo no chão, rápido e forte, me acordou e me jogou para fora da minha cama, acordei assustado e suando frio. Minha mulher estranhou e acordou também, buscou um copo d'água, me colocou na cama, contei a ela o que havia ocorrido e ela com um olhar mágico me acalmou, passou suas finas mãos em minha cabeça, foi descendo pelo meu rosto, me beijou, trocamos caricias e fizemos amor.


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