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José Simão
Diarréia Mental


quarta-feira, janeiro 22, 2003

 

Parte 1

Fiz que não escutei, continuei assistindo tevê sem ligar para o que ela me dizia. E daí que estou sem emprego? Nós ainda temos o que comer, e isso basta, as contas e dividas a gente vai levando e quando conseguir eu pago, já disse isso, mas não, de que adianta, ela não para de me azucrinar, fica falando na minha cabeça desde o café até a janta, sorte que dorme como uma pedra. Já estou começando a ficar cansado disso, parece que a culpa é minha, e ela? Por que ela não vai trabalhar? Pensa que é fácil assim arranjar um emprego decente? Eu mereço coisa melhor do que aquela firma maldita, trabalhava que nem um escravo, oito horas todo dia para ganhar uma merreca.

Minha filha de namoradinho novo, um vagabundo, não faz nada da vida, vive de bico, um biscateiro sem vergonha que só quer comer minha filha, já percebi isso nele, sem respeito por nada, não vale o que come, quanto mais se for minha filhinha linda. Um amor de pessoa, 15 aninhos, e já está com esse paspalho, 23 anos com cérebro de 13, consegue ser pior que meu afilhado, o filho do da minha mulher com um namorado de infância dela, cena igual a da minha filha, isso me preocupa um tanto. Mas confio na educação que dei a ela e sei que não fará nada de errado.

Já se passaram três meses dede que pedi demissão da firma, até agora só recebi propostas piores, as dividas crescem, mas eu sobrevivo ainda, está dando pra levar, não vou mais me matar por migalha, ainda honro as calças que visto!

O sem vergonha do meu cachorro mijou em todos os meus sapatos, todos os dois pares, os únicos que eu tinha para sair, como minha mulher quer que eu procure emprego agora? Manchou tudo, ela que limpe se quer que eu saia, mas ela só sabe reclamar, fazer algo não faz, deixa nas costas dos outros, vive pedindo, vive com dor, de cabeça, de perna, cansada, parece que morreu e esqueceu de deitar, maldita hora que fui me casar com tamanho trapo de gente, só serviu para atrapalhar minha vida, a essa altura do campeonato já era para eu ser um grande empresário e não o merda que sou agora.

Mas dane-se, a vida vai levando, pra tudo tem uma solução, para que esquentar a cabeça com problemas? Deus Ajuda quem cedo madruga e eu sempre acordei cedo, dormir cedo, acordar cedo, cumprir com minhas obrigações, sempre fui um cara certo e honesto, mas para que? Para porra nenhuma, para viver essa vida de merda que eu tenho agora, para suportar uma mulher irritante que me dá nos nervos, uma filha vagabunda que tá dando prum salafrário da pior espécie, um bosta de um afilhado que só sabe passar o dia na frente da TV e um vira lata que não serve nem pra latir!

Então vai a merda tudo o que já fiz, hoje essa desgraça acaba, vou pegar meu carro e vocês vão ver, vou provar para todos quem sou eu, hoje volto com o melhor emprego de todos!

Pego a chave, arrumo o terno, a infeliz da minha mulher engraxou os sapatos, pelo menos isso, entro no meu Corvete, olho no porta luvas se está lá meu "item de segurança", parto para a paulista, sei que vou conseguir, essa cambada de vagabundo vai ver quem sou eu. Vocês vão ver, hoje eu volto bem melhor do que fui...


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Parte 2

Estava dirigindo meu carro, todo tranqüilo, um dia normal do nosso verão paulista, meio dia quente pra chuchu, mas sabendo que deveria esperar a chuva no final da tarde. Parei no farol no cruzamento da Paulista com a brigadeiro, um idiota atrás começou a buzinar, olhei para ele e apontei apara o semáforo vermelho, tornei a me virar de costas e o cara buzinou de novo, coloquei a cabeça pra fora da janela e gritei:
- Porra, cê não tá vendo que o farol tá vermelho?
Cara folgado, não entendi qual era o grande problema dele. Só sei que buzinou de novo e começou a gritar, quando olhei para fora para mandá-lo a algum lugar não muito lisonjeiro, nessa hora senti um cano frio quase quebrando meu dente e colocando minha cabeça para dentro do carro de novo, o cidadão olhava para mim segurando a arma na minha boca e perguntou:

- Você não vai sair da minha frente não?
- Vou... Vou sim...
- Então por que ainda não saiu?
- É... Porque... Eu...
- Por que você é cuzão né?
- É, eu sou cuzão, sou cuzão!
- Então liga essa porra de carro e sai da minha frente, entendeu?
- Entendi, entendi sim senhor, me desculpa, desculpa!

O cara voltou para o carro e eu tremulo entrei na brigadeiro quase trombando com um ônibus que vinha em alta velocidade, o camarada saiu cantando pneu com seu Corvete velho. Desci a Brigadeiro em direção ao Ibirapuera, nem pensava mais que tinha que voltar ao trabalho, estava branco, suando frio, em poucos minutos eu senti a mão da morte tocando meu peito, fria como uma manha de inverno europeu, pesada, horrível. Estacionei o carro e nem dei muita bola para o flanelinha que veio pedir para guardar o carro, entrei no parque e no primeiro pedaço de mata com sombra me deitei, respirei e fechei os olhos para relaxar, de olhos fechados a imagem de uma pessoa transtornada segurando uma trinta e oito com o cano na sua boca não era muito reconfortante, me sentia cada vez pior, quase senti vontade de chorar, uma dor de ódio me subiu a cabeça, queria acabar com aquele cara, matá-lo, aliás, matar não, vê-lo sofrer seria mais interessante! Adormeci e acordei melhor, saí de lá e fui pegar meu carro, acabei dando um real para um outro garoto que disse estar cuidando do carro, acha que sou idiota, bom, devo ser por ter dado a nota.

Subi a Manuel da Nóbrega e desci no meu prédio, disse ao meu supervisor o que aconteceu e ele disse para eu voltar no dia seguinte, seria melhor que eu fosse para casa e esquecesse o assunto, foi o que fiz, saí do prédio e segui para casa, num cruzamento o farol fechou, ouvi uma buzina e no susto acelerei, alguma coisa tomou conta de mim, medo provavelmente, quando tomei consciência do que fazia já era tarde, acabara de atropelar um transeunte que atravessava a rua, desci do carro transtornado e olhei a vítima, eu naquele momento tinha acabado de matar um filho da puta que quase me matou, olhei para o semáforo e vi vermelho, olhei para ele e vi, vermelho...


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